Você gostaria de saber um pouco sobre os bastidores do processo criativo do poema do meu último post no instagram e ainda sair dessa leitura com dicas e estímulos criativos para escrever o seu poema autoral?
Como escrever uma poesia de feitiço?
Bom... Escrevi o poema "Mulher de Feitiço" depois de assistir ao show "Concerto para Iansã", do grupo Bongar em parceria com o "Estesia". Duas bandas incríveis da minha cidade, Recife.
Saí do show muito mexida.
Chorei horrores e só pensava em chegar em casa para escrever algo. Precisava tentar colocar em palavras o que os tambores acenderam e fizeram reverberar no meu corpo.
O nome disso é INSPIRAÇÃO!
Escrever começa no corpo. No arrepio que uma música provoca, no cheiro da chuva chegando, no gosto inesperado de uma lembrança, no arrepio que dá quando algo te emociona.
Para uma escritora, inspiração não é apenas a ideia — é estímulo. É experiência. É sentir antes de dizer.
Cercar-se de estímulos sensoriais e sinestésicos é uma forma de abrir as janelas da alma para o mundo. É como sintonizar o corpo com frequências mais profundas da existência. Lembrar a textura de uma folha ao macerar as ervas no preparo do banho, o som dos tambores, a luz vermelha atravessando a cortina, tudo pode virar palavra, desde que você esteja presente o suficiente para deixar que isso te atravesse.
Por isso, inspiração verdadeira não se busca, se cultiva. Se você é escritora e anda se sentindo bloqueada, talvez o convite não seja "escreva", mas sim "vá atrás de experiências que te façam sentir VIVA".
Lembre de que escrever é elaborar o que o corpo viveu. E viver é, antes de tudo, deixar os sentidos em estado de atenção.
Mas voltando...
Cheguei em casa e passei horas decantando minha emoção. Depois disso, sentei para escrever o poema "mulher de feitiço". Precisei do meu corpo inteiro para isso.
Evoquei a memórias das mais velhas, sabedorias que não estão nos livros e fiquei me relacionando com os aprendizados do axé que atravessam nosso dia a dia e o poema foi começando a existir, a se materializar.
Se você quer escrever uma poesia que te caracterize como mulher de feitiço — ou uma poesia que te proteja e te lembre quem você é — aqui vai um passo a passo afetivo:
Feche os olhos e se pergunte: quais partes de mim já foram julgadas, mas são minha força?
Pode ser o timbre da tua voz, o modo como você ri, o seu corpo, a intuição que ninguém leva a sério, a raiva que você aprendeu a esconder.
Escreva sobre isso. Transforme o que te disseram que era demais ou "defeito" — em encantamento.
Que saberes femininos ou ancestrais habitam meu corpo?
(Ex: intuição, silêncio que escuta, cuidado com os outros, raiva justa, reza, coragem, sabedoria de planta, firmeza nos olhos….)
Pense nas mulheres da tua linhagem. Nas que queimaram erva, nas que curaram com reza, nas que silenciaram por sobrevivência.
O que delas ainda vive em você? Que frases, gestos, saberes você herdou sem perceber?
Use essas imagens como amuleto poético: o pano de prato bordado, a arruda atrás da orelha, o banho de sal grosso no domingo. Tudo isso é verso esperando nascer.
Feitiço é feito de intenção e elemento. Escolha os teus.
Pode ser terra pra firmar, água pra limpar, vento pra levar embora, fogo pra transformar.
Pode ser erva, sal, silêncio, pimenta, lua, umbigo, orixá.
Liste os elementos que te representam. Eles serão os ingredientes simbólicos da tua escrita.
Agora, comece o poema.
Use frases curtas, imagens fortes. Fale com a firmeza de quem não precisa pedir desculpas por existir.
Use repetições como se estivesse fazendo um encantamento real. Preste atenção na sonoridade.
Feche o poema com uma frase que te nomeie. Declare quem você é, sem medo.
Pode ser algo como:
"Eu sou mulher de feitiço, e minha presença muda o ar."
"Meu corpo é proteção, minha palavra é veneno doce."
"Eu sou filha daquelas que não se ajoelham."
Essa poesia não precisa agradar ninguém além da tua alma. Escreva como quem acende vela pra si. Como quem se vê no espelho e diz: “eu sou minha própria reza”.
A poesia é tua. O feitiço também.